oceano

Existem momentos em que o passado me assombra. Lembro algumas cenas com seus olhinhos tão grandes quanto poderiam ser, curiosos e gentis.

A vida mudou tanto e eu e você mudamos tão absolutamente que chego a ter certeza de que não era eu aquela que vivia nos meus 28 anos. Essa a maior prova de que a alma muito se modifica.

Sábado à noite e eu estou em casa. Acordei cedíssimo para meditar, comer tapioca na feira, fazer yoga e surf. Acordei com uma mensagem de dia extremamente feliz que dava até medo de saída.

Ah, sim, tinham convites para fazer o dia continuar na mesma batida: um almoço, e para a noite um show, uma festa e até uma simples voltinha. Acontece que não consigo mais deixar de ser coerente entre pensamentos, palavras e ações. Virei uma chata? Sei até quem deve pensar assim de mim, mas não me importo mesmo. Não consigo mais usar as máscaras convenientes, dependendo de com quem estou. Ando nua, se é que me entende.

Hoje vi o quanto uma atitude de puro egocentrismo repetida por anos, pode fuder com a cabeça de uma criança. E não pude calar. Alguns perdem amigos para não perder a piada. Eu perco por não aceitar mais assistir às atitudes cruéis como se nada fossem.

A crueldade parece ser realmente humana. Ela faz parte do dia-a-dia. Existe de mãe para filho, de homem com a mulher que “ama”, de chefe e amigo com seu funcionário e amigo, assim como os vice-versas.

Nessas horas, não deveria dizer isso, mas penso que a vida poderia acabar logo. Só para passar deste tempo e ver se do outro lado a dor pode ser um pouco menos profunda. Porque dói, ah, dói.

Tem gente lutando pela própria vida, tem crianças dormindo cheiradas em cima de respirador de ar para se aquecer,armas apontadas para a cabeça de bebês e a dama chique e linda que desfila de arma na mão e é aplaudida nas redes sociais.

Tento todos os dias ver diferente, geralmente consigo. Mas hoje, infelizmente minha visão ficou triste, igual a de todo o mundo.

E de repente as lágrimas escorrem e eu já nem sabia que as tinha.

No mar caribenho de hoje perdi meu anel de madeira e prata que me acompanhava há cerca de 7 anos. Deu um vazio momentâneo que logo passou. Enquanto estava na minha primeira e doce parte do dia, intuí que ele deveria estar carregado de muitas emoções destes últimos anos nada fáceis da minha vida e que nada mais simbólico do que perdê-lo no mar.

Vida que segue. Quietinha amanhã, segunda promete. Nada como um dia após o outro.

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